quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Homossexualidade e doença em meados do século XIX.


Foto: Retrato de Johann Friederick Overbeck de Franz Pforr.



Leandro da Silva Cardoso.
Leandro_cardoso_90@hotmail.com

Entre parênteses.

É interessante trabalhar minorias no século XXI. Em Pernambuco vimos neste ano de 2009 um casamento simbólico entre gays. Graças a essa união (de gays ricos, deixando claro) que gerou muitos comentários na imprensa local incluindo o principal jornal do estado, achei interessante pesquisar a história do homo erotismo no Brasil. De pecado nefando, passando por vício de clérigos portugueses e chaga da catequese até modismos publicitários, muitos anos e muitas histórias surgiram no amor que não podia ser pronunciado e muito menos praticado.

Observação: Deixo bem claro que é uma pesquisa mínima, suscita de curiosidades, sem nenhuma pretensão a artigo acadêmico muito menos a normas da ABNT.

Delimitando a história.

A homossexualidade masculina era praticada na Grécia antiga. Tolerava-se a pederastia (relação sexual e “emocional” entre adultos e adolescentes pré- púberes), porém era considerado crime e alvo de repúdio relações de adultos com adultos.

Além do que ser passivo era motivo de chacota pública. Bem, nessa questão não houve muitas mudanças nos últimos 2500 anos. Tudo bem que o carrasco não sujava a lâmina com um sangue podre de um homossexual passivo como se dizia na terra de Sócrates, mas na era High Tech é necessário ter uma cartilha de comportamento firmado pelos próprios gays em ser homem heterotizado em vez de afeminado.

No Brasil Imperial com a secularização da Igreja Católica e com o livre arbítrio de cultos religiosos, os homossexuais deixaram de sofrer perseguições religiosas na corte. Era, porém caso de polícia, precisamente responsabilidade da intendência de polícia da Corte. Ser denunciado por atos sexuais pelos vizinhos não davam mais fogueiras, davam semanas de cadeia. Muitos homens que se vestiam com camisas rendadas, usavam gels e perfumes eram considerados atenta dores da masculinidade.

Na comarca de Rio das Mortes, próximo a cidade de São João Del Rey, Luiz Mott, professor da UFBA escreveu sobre um professor particular chamado João das Tabordas (No passado, internatos eram nas grandes cidades, os pais contratavam professores particulares, ou padres- mestres para ensinar as primeiras letras aos filhos) que mantinha relações sexuais com um aluno.

“Meu amorzinho venha até a mim, estou na beira do rio, louco pra te ver, trago uma garrafa de água ardente par nos dois”.
Percebe-se nessa cartinha um envolvimento afetivo. Nem eu, nem o professor da UFBA sabemos o que aconteceu com os dois. Essa carta hoje faz parte dos inventários da Biblioteca Nacional. O chamado vício dos clérigos (padres e a relação entre as “batinas” nas noites escuras dos seminários coloniais) não podia nunca ser pronunciado.

Por isso a expressão pecado nefando segundo o dicionário Aurélio, era aquilo que nem se quer poderia se falar, comentar. O pecado mortal, sodomia completa, com ejaculação era porta de entrada sem escala para o inferno. Muitos afeminados (a expressão já era conhecida em Portugal continental) tinham profissões que na atualidade poderia ser classificados como estereotipadas para gays como cabeleireiros, modistas e cantores castrati (jovem que tinham os órgãos sexuais castrados para ter a foz afinada em corais da Igreja ou em óperas nos teatros da Corte).

A medicina legal começava a desenhar o perfil do “antifísico”: um tipo humano relacionado a determinadas formas de animalidade, entre as quais as relações homo. Imediatamente, a homossexualidade, associada a uma herança mórbida, tornava-se alvo de estudos clínicos.

O homossexual não era mais um pecador, alvo do fogo cristão, mas um doente, a quem era preciso tratar. Na corte imperial, no hospital da praia vermelha, inaugurado pó Pedro II e tendo Philippe Pinel como patrono, os homossexuais eram alvo de choques anafiláticos, tratamentos com purgantes e duchas frias ou quentes. A beleza da Praia localizada na enseada do bairro de Botafogo era ofuscada pelos gritos de pavor dos pacientes.

Tudo podia começar por uma amigação em um colégio para rapazes. A literatura é clássica ao abordar o assunto em O ateneu de Raul Pompéia. Não podendo se relacionar com o sexo oposto, muitos jovens tinham sua iniciação sexual com o mesmo sexo. Em Casa- grande e senzala, Gilberto Freyre deixa claro que no mundo da civilização da cana, antes mesmo dos garotos se fartarem da carne e das curvas das negrinhas e mulatas, um companheiro, o muleque( criança negra, mula pequena) era seu primeiro brinquedo sexual. O sociólogo de Apipucos também deixa outros relatos interessantes. Alguns tipos dengosos, quase sinhazinhas, faziam-se notar pelos trajes de veludo, pelas sobrecasacas a Luís XV com rendas nos punhos, pelas golas de pelúcia dos casacos, muita brilhantina, pó de arroz nas faces, o extrato excessivo no lenço, adereços que os tornavam objeto de escárnio por parte dos colegas e “dos cabra machos” do Recife.

Em seu livro Attentados ao pudor: estudos sobre as aberrações do instincto sexual de 1884, José Viveiros de Castro, professor de criminologia na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro empregou, pela primeira vez, um termo pejorativo: fresco. No capítulo intitulado “Pederastia”, descreveu os frescos cariocas, referindo-se a homens que, em 1880, nas ultimas festas do Império, invadiram o baile de máscaras do Carnaval no Teatro São Pedro, localizado no largo do Róssio, centro da Capital. Tal como outros intelectuais da época – físicos, políticos, advogados, intelectuais e artistas -, ele retratava os sodomitas modernos como homens efeminados que praticavam o sexo anal (conhecido até o século XVIII como vaso traseiro ou o pecado do sexto mandamento) como elementos passivos e ganhavam a vida com prostituição das ruas. “Um desses frescos”, diz Viveiro de Castro.

Como eram conhecidos na gíria popular, tornou-se célebre pelo nome de Panela de Bronze. Vestia-se admiravelmente de mulher, a ponto de enganar os mais perspicazes. Dizem que chegou a adquirir alguma fortuna por meio de sua torpe indústria e que era tão grande o número de freqüentadores, pessoas de posição social, que era necessário pedir com antecedência a entrevista.

Membros da classe médica, como o conhecido Ferraz de Macedo (um dos mais importantes da época e médico da família Imperial), ocasionalmente escreveram sobre o tema, combinando a tradicional aversão moral ao homo erotismo com teorias do tipo: a homossexualidade se devia a distúrbios psicológicos; originava-se graças à falta de “escapes normais”; atribuía-se a criação moral imprópria. Listavam-se as diferentes características dos “penetradores” e dos “penetrados”. Era a moralidade e não a medicina, o remédio para lutar contra essa “aberração da natureza.”

Oscar Wilde, o famoso escritor inglês autor do O retrato de Dorian Gray sofreu na pele o preconceito contra sua forma de amar. Em Di Profundis/ balada do cárcere de Reading obra que escrevera na prisão, o escritor fala de sua relação com Sir Alfred Douglas e como o jovem belo, delicado e amável o deixou na miséria e o denunciou contra a suposta corrupção. O amor que não podia ser declarado segundo ele, o arruinou.

Voltando ao médico do Imperador, esses homens os “diferentes” tinham vocábulo próprio e sinais para efetuar suas “cantadas”. Identificavam-se por conversas, gestos de mãos e “pouca serenidade e circunspeção”. Gostavam de ficar à toa em lugares públicos, especialmente nas ruas mais movimentadas, em procissões religiosas- eles, tanto quanto os casais heterossexuais – em frente aos teatros e durante romarias. Possuíam elegância, faziam questão de estar bem vestidos, portando camisas bordadas, lenços vermelhos ou azuis e gravatas de seda. Perfumavam os cabelos, usavam ruge e maquiagem pérola, portavam berloques e correntes de ouro. Eram considerados representantes de um mundo depravado segundo as rodas de fofocas. A malícia e o antilusitanismo da época ficam evidentes na acusação que os comerciantes portugueses sofriam de fazer seus caixeiros suas “mulheres”.

Não faltavam notícias de jornais, como a publicada no O periquito, de Recife, sobre os “Tarugos”, como eram chamados aqui.

“Um moço de 16 anos, pardo”, com uma cabeleira que se desprendia em grande trança.

Vestia camisa de mulher, meias compridas e sandálias bordadas. Em seu baú foram encontrados retratos de alguns empregados do comércio, cartas amorosas etc.” Foi a época do famoso Herotides, que dançava, em trajes típicos, em marchinhas e bailes pastoris, correntes em dezembro, ou de Atanásio, que à rua dos Ciganos, na Capital, recebia desde um simples caixeiro ao senador do Império.

Ainda na Veneza Brasileira, Francisco do Rego Barros, militar e engenheiro matemático formado na França, governador da província agraciado com os títulos de barão e Conde da Boa Vista, mesmo não sendo homossexual foi uma famosa vítima de fofoca entre os recifenses. O fato de ser um homem estudado na Europa, e limpo, graças ao cuidado com o asseio pessoal, incluindo o uso de loções e perfumes, o deixaram com a fama de fresco entre os homens hipócritas da capital do Nordeste canavieiro.

Posfácio.

Tentar compreender a história do homossexual na atualidade é tentar encontrar, garimpando no passado a sua história. O estudo de gêneros é algo novo na historiografia e muitas vezes é alvo de preconceitos na própria academia. Se hoje, dois homens podem adotar crianças e tem direito a comunhão de bens, foi por que houve derramamento de sangue pelo desejado sonho de igualdade dos nossos diferentes tarugos de madrepérola e amores soltos.

Algumas bibliografias.




FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. 14. Ed. Global, 2007.

MOTT, Luís. Pagode Português: a subcultura gay em Portugal nos tempos inquisitoriais. Ciência e Cultura, 40(2):120-139, fev. 1988.

PRIORI, Mary Del. História do amor no Brasil. Ed. Contexto, 2003.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Simbologia e vida privada – A Heráldica no Brasil dos Oitocentos.



Foto 1 – Família Brasileira indo a missa – Jean Baptiste Debret.
Foto 2 – Brasão de Armas – Família Cardoso.
Foto 3 – Brasão de Armas – Dinastia Bragança.


Nos distantes anos de nossas infâncias, ainda no lúdico e feliz tempo da formação de nossas primeiras letras, onde somos reis, imperadores, piratas, polícia e ladrão, somos apresentados aos estranhos e temporais pronomes de tratamento.

Num país sem educação literária onde a televisão é a madrinha e ao mesmo tempo patriarca ou bruxa do lar, certos tipos de estudos beiram a catarse surreal. Afinal de contas, os mais velhos são tratados por você, tio, tia e outras expressões nada educadas como fulano e etc.

No Brasil, ex - meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro, saudosista de Ary Barroso, soa estranho para o jovem moderno, tecnológico o olhar do passado como se fosse algo retrógrado que necessita ser esquecido.

É como se o brasileiro de carne nova e sonhos práticos tivesse no seu imaginário, vergonha de sua formação, de sua história.

Basta uma pequena olhada no estado de conservação dos nossos museus. A França, berço da neo- civilização do século XIX, reduto de reinvidicações que transformaram para sempre a mentalidade e a vida prática da sociedade ocidental tem profundo apreço pela sua memória.

Em Pernambuco, o estado- estrago é lastimável. Até o Museu da Abolição está entregue as baratas e aos cupins. Falta de publicidade dos governos? Também. Mais, todavia educação doméstica conta muito.

Numa recente pesquisa divulgada pelo jornal Diário de Pernambuco, 93% da população do Recife não freqüenta museus, teatros ou exposições. O que significa que esse tipo de cultura não faz parte do lazer do recifense.

Ainda existe um estigma social de que esses locais não podem ser visitados por pessoas carentes, porém é comum aliança desses institutos com a prefeitura da cidade para quebrar essa barreira excludente.

Mas voltando ao desenvolvimento desde artigo, eis que surge em nossas mãos, expressões nada comuns ao nosso dia a dia como vossa eminência, vossa excelência e por aí vai.

Com mais de 100 anos de implantação da uma República Federativa aos moldes da norte americana se recriou, reinventou seus títulos e sua simbologia.

Da representação feminina que lembra Delacroix – a liberdade guiando o povo (famoso quadro da Revolução Francesa com a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade) a nossa bandeira, representações foram necessárias para a construção social da nova realidade política do país.

Comparo nossa história privada, com a ritualística do teatro. Somos (condicionados (pelo conceito de ética, estabelecida por um grupo hierárquico vigente)) por normas de comportamento e de bons costumes. É só imaginar que há pouco mais de 200 anos, homens e mulheres se alimentavam com as mãos sem auxílio dos europeus e civilizados talheres.

As sinhás davam um punhado de comida com as próprias mãos aos escravos e esses repassavam as suas crias – leiam-se filhos.

Atento as transformações dos costumes da época, elaborado por médicos e sanitaristas, ministros e ourives escreviam manuais de bom comportamento.

Numa época em que ricos queriam se distinguir a todo custo de pobres, surge à literatura para moças e rapazes. Até uma edição chamada Príncipe Perfeito fora editada em honra e glória ao príncipe regente D. João e seus futuros filhos.

A obra de conteúdo político visava explicar a diferença entre o ser civil e o chefe de estado. O Rei por tanto estava acima da sua vida privada. Era por tanto um prolongamento, a personificação viva de sua nação e não deveria ser regido por fortes emoções.

Com a chegada da família real lusa em solo tupiniquim, era necessário criar no imaginário coletivo da população local, brasileira, brasiliana, brasiliense, uma idéia de nobreza. Aliás, sem rei não existe corte, sem corte as representatividades das insígmas não aconteceriam.

Rei morto, rei posto, antiga expressão popular francesa. A monarquia não morria, assumia caráter imortal através de suas armas, brasões, e sobrenome. Era por tanto repassada.

Como era essa instituição na já cansada e idosa Europa? Estava em profundo declínio, coroas de ouro e brilhantes rolavam escadas abaixo em Versailles.

No velho continente, famílias conquistavam terras e subordinados. A monarquia fora fruto de guerras de ocupação em toda a alta idade média. De feudos em feudos, países foram construídos.

Escravos e pequenos empregados se sujeitavam por resignação moral ao soberano. Atribuíram em algum lugar, poder divino ao chefe supremo – deve ter sido inspiração egípcia.

Com as luzes, iluminismo (livros) e com a imprensa régia, ideais e reivindicações começavam a soprar do leste e oeste ventos de mudança. Críticos e analíticos começaram a brotar das cidades, dos campos. Começou daí o declínio e o desespero da instituição.

Na Europa, a nobreza tinha privilégios e gozava de influência direta sobre o Estado. Na verdade ela era o próprio estado. A própria expressão fidalgo – filho de algo exemplifica essa afirmação.

Impostos e luxos das famílias reais eram pagos com os impostos da população, independente da classe social incluindo despesas funerárias.

Toda a raiva dos franceses em relação aos Bourbon se dava pela miséria da população. Enquanto Marie Antoniette gastava aos milhares os cofres públicos em roupas e jóias, milhões de cidadãos morriam de fome e frio tanto em Paris como no interior. Algo muito semelhante à Revolução Russa que em pouco mais de 100 anos a sua frente destituiu a dinastia Romanov.

D. João atento ao caos que pairou sobre o continente sabia que o absolutismo estava com seus dias contados. Em algumas décadas as histórias do Brasil, de Portugal e da França teriam suas estórias entrelaçadas.

No Brasil, terra distante, o famoso inferno verde onde se temia monstros comedores de donzelas e cristãos e profundamente manchados pelo terror da escravidão indígena e negra.

D. João recriou sua nobreza utilizando nomes europeus antigos, mas com significados particulares. A principal característica de nossa nobreza tropical nascente era os serviços prestados a El rei e a coroa.

Suas insígnias, seus brasões representava, seu histórico familiar, sua linhagem como o poder atual que o sobrenome tem na construção da família brasileira. Era preciso conservar sua genealogia para ser respeitado. A aurora do nobre brasileiro era a carteira recheada de dinheiro ou de pedras preciosas.

Até hoje, o jovem atento a sua própria história consegue descobrir a simbologia de sua família, suas restrições e seus ritos particulares.

Ser nobre no Brasil Colonial não era um estado familiar medieval era a contribuição individual a casaca do soberano. O grande exemplo das regalias e dos títulos dados pelos Bragança se converte, por exemplo, na aquisição de sua principal morada no Rio de Janeiro.

Em 1808, no mesmo ano da abertura dos portos as nações amigas, vide Inglaterra, o príncipe Regente “ganhou” uma linda chácara afastada alguns quilômetros do burburinho, da agitação do centro da cidade.

Desde 1763, a cidade úmida e recortada por vales fora a capital do vice reino do Brasil graças ao escoamento do ouro das Minas Gerais deixando São Salvador da Bahia em segundo plano na riqueza colonial.

Com o grande alvoroço da chegada da corte, o português precisava de um local a sua real altura para fixar residência.

Por ter uma vista deslumbrante onde se via o corcovado e algumas igrejas ao por do sol como as do Convento do Carmo e Santo Antônio deu-se ao local o nome de Quinta da Boa Vista.

O benfeitor? Um rico homem chamado Elias Antônio Lopes, que tinha a “digníssima” e “ honrada” profissão de traficante, ops importador, negociador de escravos africanos.

Pode parecer estranho, bruto e repugnante para o pensamento atual, mas era no passado de nosso país um costume muito comum que rendia grande soma de dinheiro e status social.

Seu “Elias” fizera um ótimo negócio. Desde que os jesuítas foram expulsos das terras lusitanas e de suas colônias além mar pelo Marquês do Pombal em 1759, as terras da Quinta se tornaram valiosas e tendo um dono que seria um dia aclamado rei de Portugal, seu nome e prestígio passaria para a história da família real e para o Brasil.

Recebera com pompa e luxo alguns títulos. Comendador da Grão Cruz da Ordem de Cristo ( A mais alta titulação de Portugal) além de terras e pensão vitalícia em São Paulo.

Mas foi seu neto, o segundo e último imperador do Brasil, D. Pedro II quem mais distribuiu comendas e baronatos. Era a forma de dignificar a elite Imperial além de promover a família numa espécie de marketing antigo.

Sua corte surgia em toda a parte. Das províncias distantes onde o Imperador era quase comparado a festa do divino quando seu nome e de seus parentes viravam feriados nacionais com missas e te-déuns e a própria cidade do Rio de Janeiro se encarregava de divulgar o mito humano com fotografias gigantes que decoravam estabelecimentos farmacêuticos e intendência da polícia.

Dos hospitais a sua Petrópolis (cidade de Pedro) todos queriam gozar a fresca e estar próximo ao Imperador.

Cada título tinha sua história, sua representação material e não era hereditário. Eu sou, Sou por que Sou, Eu tenho por que faço e Eu ufano eram os mais comuns. Até mesmo coroas eram confeccionadas pela casa imperial por uma quantia nada singela.

Diferentemente da corte de Luis XVI, onde o estado financiava o luxo da heráldica, na brasileira eram os próprios portadores do mérito que pagavam o direito de usufruir o luxo.

No teatro da vida cotidiana, ter um título era um grande prestígio nas rodas sociais e não faltaram homens que conseguiram levar para as alcovas da vida pálidas iaias a troco de um lenço ou de uma caneta com as insigmas de seu nome.

Nesse mundo seleto e particular, talvez inspirado no antigo Egito, a pirâmide social marcava a grandeza e a importância dos titulares. Na base estava o barão.

Esse foi o título mais dado a cidadãos por Pedro II em seu reinado. Por ser o mais simples, suas representações não encareciam o Império.

Depois Condes, Viscondes, Marqueses e Duques compunham a peça monárquica dos trópicos. Esse último o pais só conheceu dois. Um o famoso Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, herói da Guerra do Paraguai e ex- professor de esgrima e equitação do imperador na sua infância.

Mulheres também receberam títulos mesmo num país ainda marcado pelo machismo e pela submissão. Dona Mariana de Verna e Luisa Margarida Portugal e Barros foram dois exemplos. Receberam condecorações e títulos de condessa por serviços prestados diretamente ao monarca.

Nos desenhos dos brasões, símbolos que representavam a personalidade, o caráter do proprietário. Não faltou no Segundo Reinado motivos indígenas – resgate do herói nacional, algo de artigos e dissertações no IHGB, Café – símbolo de poder e principal economia de exportação do período, locomotivas e ferro- abertura de capital estrangeiro e industrialização e frutas tropicais – exportação e símbolos de riqueza.

A arte da titulação era presente na vida rotineira da população. Estava nas colchas de cama bordadas, nas louças de porcelanas pintadas, nos leques importados e especialmente confeccionados da China, e nos ritos de passagem como nas cartas de nascimento e óbito em forma de carimbo ou desenho.

A própria família Imperial e sua mordomia se encarregavam de confeccionar vasos, livretos, xícaras e outros elementos para divulgar suas figuras e sua história.

Irineu Evangelista de Souza se envaidecia com o título dado por sua Majestade. Desde a inauguração da estrada de ferro D. Pedro II, atual Central do Brasil em 1854 o “Rei” da Corte fora agraciado com o título de Barão de Mauá.

Mesmo industrial, capitalista, visinho do ilustre governador do Brasil, a simbologia lhe enchera de orgulho próprio.

Seu Brasão, um dos mais conhecidos do Império representava sua própria história de superação pessoal na modernização do estado brasileiro. A locomotiva e a frase em latim. “O trabalho enobrece o homem” e a classificação EU TENHO POR QUE FAÇO.

Uma clara demonstração de democracia na nobreza do Brasil. Percebe-se que a própria corte reconhecia o cidadão comum como ser pensante e formador da história do país.

Não era preciso nascer rico para integrar o teatro da corte carioca. Em meio a anquinhas, plumas e charutos cubanos, existia tanto a miscigenação quanto a emergência nos salões que entoavam Vivaldi.

O próprio Irineu, nascido numa estância em São Pedro do Rio Grande, atual Rio Grande do Sul era pobre e ao chegar ao Rio em pleno Primeiro Reinado trabalhou na Rua direita, uma das mais movimentadas e “mestiças” do país.

Fora caixeiro viajante, algo como Office boy da atualidade. Chegou a ser o homem mais rico do Império e suas empresas juntas não davam nem ½ da dotação particular do Imperador.

Como vocês podem ver, ainda existe no imaginário popular expressões como você é rico, é barão! E que título é hereditário. Não funcionava bem assim. Podia o usuário ter tido vida humilde e ascendeu. Não era uma monarquia tão absolutista assim!

Referências Bibliográficas:

SCHWARCZ, Lília Moritz, As Barbas do Imperador, D. Pedro II, um Monarca nos Trópicos, São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma PRAÇA e um RESTAURANTE e a desigualdade social no Recife em pleno século XXI.


Foto 1- Praça Joaquim Nabuco - Bairro de Santo Antônio - Recife
Foto 2- Restaurante Leite.


Recife, Veneza americana poluída, primeiro dia de setembro, dois mil e nove anos após a crucificação do já mítico Jesus Cristo. Um poético e belo início de tarde com pardais e pombos sobrevoando as ruas da aurora, do sol, ponte da Boa Vista (ex Pedro II) em pleno coração histórico da cidade.

Pernambucanos pacatos, jovens, estudantes e idosos arruam pelas travessas e avenidas tão preocupados com suas individualidades que não percebem ou não se deixam perceber as obras de artes em granito e ferros que formam uma imensa galeria ao céu aberto.

Monumentos e estátuas não são observados por conta da midiática condição do homem moderno.
Como diz Zygmunt Bauman em seu mais recente livro intitulado modernidade líquida, “o ser humano é tão preocupado consigo mesmo que o mundo externo não faz mais sentido e passa ao largo como a um cego”
Inserido nesse contexto sem me envergonhar ao caminhar por ruas tão bravas e históricas cheias de lendas e grandes insurreições regionais como a revolução de 1817 e a confederação do Equador vi na Praça Joaquim Nabuco (Bairro de Santo Antônio) meu foco deste ensaio.

No ponto central desta via, uma belíssima estátua do abolicionista e diplomata brasileiro filho do senador imperial José Tomás Nabuco de Araújo. Vestindo uma casaca que representava os áureos estudantes de direito da faculdade do Recife, (de fronte ao atual Parque Treze de maio) nome dado graças à redentora princesa, com seus bigodes a La “galã de dramalhão espanhol” Joaquim, o varão, aponta para uma direção incógnita.

Acredito que seja para o Capibaribe ou a Assembléia na época provincial. Ao seu redor, em mármore branco, homens e mulheres em situação de súplica e redenção ao que imagino escravos, saúdam o jovem ilustre graças as suas campanhas abolicionistas no Teatro de Santa Isabel.

Nabuco, filho da terra, nascido na elite da já decadente cana de açúcar passara sua infância no engenho Massangana e provavelmente teve a mesma criação dos sinhozinhos privilegiados dos oitocentos.

Catecismos, mestres-padres (ensino em casa, na casa-grande) e iniciação sexual precoce. Homem boço, másculo aos 14, 15 anos de idade, numa época que a expectativa de vida girava entre os 30 anos.

É deveras costume das grandes e antigas cidades brasileiras darem aos logradouros e ruas, nomes de ilustres filhos que contribuíram para a projeção do leão do Norte ao eixo da macro região sudeste.

A antiga corte situava-se no Rio de Janeiro. Ter um representante da província era sentimento de orgulho para a sociedade local.

Hoje em meio a casas comerciais de móveis e eletrodomésticos (aos gritos, e cerrando suas portas mais cedo que no passado) vemos seu monumento alvo de vandalismos como depredações e o já antigo e fétido hábito de urinar em público se tornou o habitué mais comum entre transeuntes e motoqueiros locais.

Prostitutas e mendigos convivem com naturalidade em meio às poucas árvores fazendo do local mesmo ao sol a pino, um lugar perigoso e decadente. Encontramos sexo fácil e gatunos típicos de grandes cidades sem controle urbano e sanitário.

Neste mesmo local, imponente, como um castelo medieval onde os odores da uréia (tão combatidos no passado pelo higienista Osvaldo Cruz) existe o centenário Restaurante Leite, o mais antigo “em funcionamento” da cidade.

Consta em artigo do Jornal Diário de Pernambuco que o recinto foi inaugurado em 1883. Conseqüentemente cinco anos antes da proclamação da república, ainda no Brasil Imperial.

É um dos poucos locais que conseguiu resistir a crises financeiras que devastaram a história da economia e da sociedade nos últimos cem anos.

O que chama atenção no ilustre e pomposo recinto é puramente o luxo “de luxe sans boulevards” do local em meio a tanta pobreza ao seu redor.

Culinária francesa e portuguesa com chefes e jeunes garçons (jovens garotos) com diploma em gastronomia e pós-graduações na antiga terra de Luis XVI.

É um local freqüentado diariamente nos almoços e lunchs pela nata da política pernambucana. A mesma que o povo que está ali no outro lado da calçada elegeu como “protetores” de seus direitos que variam de saúde, alimentação moradia e cultura.

Nabuco do alto de sua grande estátua deve se indagar. Será que somos livres depois da escravidão? Foi-se as correntes, as máscaras de flandes, mas a exclusão social moderna, não seria uma espécie de escravidão? Será que mudou muita coisa dos tempos das maxambombas, tibultís, bondes ao moderno e veloz metrô?

Pela imaginação, vejo vida nesse Nabuco já centenário, percorrendo as madrugadas silenciosamente burocráticas no velho Recife, ao exemplo das gárgulas mágicas da obra O corcunda de Notre Dame de Victor Hugo e vendo a fome, os sem teto que povoam a Avenida Conde da Boa Vista, a consternação de seus patrícios em uma modernidade só feita para a elite.

Deve voltar ao seu repouso à alvorada do raiar do sol, chorando lágrimas de indignação.

Prefeitos, ex-governadores, secretários do governo e bajuladores, estacionam seus veículos caros e pretos num cenário bucólico e surreal tão intimista que parece pintura de Salvador Dalí.

Visto não apenas uma situação que acaba passando despercebido, mas uma visão real de dois mundos opostos que só se encontram quando por benefício paliativo do necessitado.

Os homens de gravata Hermes e sapatos Ermenegildo Zegna que adentram a ilha dos sonhos do pobre centro do Recife só beijam crianças e atendem aos necessitados em época de campanha estadual ou municipal oferecendo presentinhos de chaveiros a dinheiro.

Aos pobres que transitam pela praça de pedras portuguesas são objetos de olhar de campanhas de marketing em época de reciclagem da república para votos de monárquicos coronéis que povoam a história do estado por várias gerações.


Referências Bibliográficas.

BAUMAN, Zygmunt. A modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Império do Foice e da Luz - A morte retratada nos oitocentos.


Foto 1- Ex-votos da Igreja de São Judas Tadeu no Bairro de Santo Antônio do Recife.
Foto 2- Retrato pertencente a família Silveira Campos no Rio de Janeiro retratando uma menina morta.
Foto 3 - Bandeira do 1º Império do Brasil por Jean Baptiste Debret.
Caríssimos e estimados leitores deste blog. Por acaso vocês possuem família no interior? Digo, região afastada burocraticamente ruralíssima com orvalho pingando na terra roxa pela manhã?
Se tiver, provavelmente remexendo baús de ancestrais, patriarcas do tempo do Império ou na Velha República de presidenciais como Café Filho ou Prudente de Morais, suas mãos irão tocar (mesmo que contra a sua vontade) em um costume outrora comum e muito elegante para a mentalidade dos senhores do século XIX, a fotografia post- mortem (pós morte).

Desculpem por mais um artigo sinistro onde alguns me coroam como um Emo fora da faixa etária. Porém o assunto é pouco estudado e conseqüentemente pouco analisado por preconceitos relacionados ao medo do desconhecido que faz o homem moderno não aceitar o domínio da morte em suas relações.
Vocês devem estar pensando, que é alguma brincadeira igual aos dos tempos de infância das lendas urbanas do boneco Fofão ou da música satânica da Xuxa. Não é e repito.
Durante muito tempo, morte era a misse ancene do Brasil Imperial. Foi costume festejado, esperado com comidas típicas e bandas de música formado por escravos.
Não se sofria tanto a morte de uma criança, ela não fazia parte ativa da sociedade como um todo e poderia ser facilmente subistituido por outro. Havia com toda certeza um certo distânciamento por parte dos genitores para com os filhos.
Os lençóis das camas eram engomados, o chão era limpo e as mulheres (geralmente escravas, se a família era abastada) pingavam gotas de sândalo e outras ervas aromáticas para perfumar o ambiente.
Conversas eram colocadas em dia e as jóias da família eram expostas aos visitantes que podiam ser conhecidos ou meros passantes nas ruas. As janelas eram abertas para a luz do sol servir de guia para o espírito do falecido.

Como vocês podem ver, o morto era exposto para todos como um objeto de contemplação que envolvia todos os integrantes das famílias. vIiajantes ficavam horrorizados com esse costume medieval.

Tudo para receber o morto. Soa macabro e de mau gosto para muitos nos dias de hoje, mas era romântico e ideal aos olhos do Brasil patriarcal.

Havia até o costume dos versos para o finado. Poesias e sonetos (em forma de livros) eram distribuídos para amigos e parentes que guardavam a “ relíquia” por décadas.

Quem é de cidades metropolitanas como o Rio de Janeiro e São Paulo provavelmente nunca ouviram falar desse costume. Os sudestinos a muito imprimiu em sua cartilha de cidadãos a individualidade.

Cadeira de arruar ainda é cotidiano na terra do açúcar, diferentemente da ex-corte. A interação com a vida dos outros, não comporta o dia a dia dos arranha céus. Se vivemos distantes dos vizinhos no cotidiano de nossas vidas imagina na relação com a morte.

Nas áreas de casas grandes de coronéis montados a cavalo como Deuses supremos da localidade, das faixas litorâneas do nordeste, era comum o convívio próximo ao morto, praticamente ceiava-se ao seu lado.

A capela servia de altar e de cemitério onde diariamente os vivos prestavam homenagens aos ancestrais queridos.

Uma criança ou mulher morta eram tratados como se fossem obras de arte de carne e sangue. Seus restos, despojos eram ornamentados com riquíssimos ataúdes forrados a ouro ou caixas com imagens sacras que variavam de anjos a santos.

A única filha da Princesa Isabel de Bragança, a princesa Maria Vitória nasceu natimorta. Foi batizada (recebeu o sacramento da salvação de sua alma) no momento de seu nascimento já não mais deste mundo.

A família Imperial mesmo traumatizada deu a princesa que lutou pela vida nos três dias de trabalho de parto um enterro digno de chefe de estado.

Fora sepultada com a indumentária de Nossa Senhora da Conceição (túnica azul) que representava a fertilidade. Era mui comum no século XIX. Acreditava-se que a alma da criança morta iria se dirigir perante a santa pedindo um novo filho aos seus pais terrenos.

Dava um certo conforto aos vivos, além da crença católica de que crianças ( bebês e menores de 3 anos) automaticamente ao deixar o corpo se tornavam anjos e os protegeriam no céu contra o mal.

Seus restos se encontram no convento de São Francisco de Paula no Rio de Janeiro. Seu caixãozinho é escarlate com um anjo banhado a ouro que aponta a direção do céu.

Poucas pessoas visitam essa parta da Igreja. Alem do que existe um grande preconceito no que considero arte funerária.

A morte em carta de visite ainda é um costume tipicamente nordestino com variações de modernidade nos nossos tempos com o advento da câmera digitalizada. Morto se torna high tech com direito a vídeo clipe do defunto.

Por mais absurdo que pareça, já vi na rede mundial de computadores perfil de mortos em sites de relacionamento. Fica na dúvida caro leitor, se eles atualizam seus recados ou comunidades.

Nos baús empoeirados da vovó, você, caro leitor assombrado do meu modesto espaço virtual pode se assustar ao ver tanto ataúdes (caixões de criança) quanto pequenos anjinhos com olhos fundos e sem expressão com roupinhas brancas ou escarlates (vermelhos) segurando raminhos de cravos. Não se engane, é a morte suavizada.

No passado, nos melhores contos infantis da era clássica (aqueles de histórias pseudo pedagógicas arcaicas), europeus davam um ar romântico ao sono eterno.

Lembrou? Sonho eterno, beleza em ataúdes e esquifes, princesas que dormiam cem anos... Contos e lendas. A princesa morta, envolta de flores que muitas crianças liam em estórias dos irmãos grimm chegou a criar sonhos de extase no escritor Victor Hugo.

A perfeição de um momento em que qualquer ser existente terá certeza que vai passar.

Bayronianos e poetas luso brasileiros cantavam as virgens pálidas e de cabelos negros ao exemplo de Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Muitos veneravam iaias mortas pela tuberculose durante noites a luz de tochas escrevendo versos acompanhados de vinhos do Porto e bolos feitos por negras quituteiras.

A imagem cadavérica era a conseqüência, porém os minutos da morte eram adorados por uma beleza que os trovadores do passado consideravam sublimes.

Qual o intuito de fotografar um cadáver? Trazer mais sofrimento aos viventes? Não. Definitivamente não.

A invenção de Daguerre que no Império vai se consolidar nas mãos de mestres na arte de fotografar como Otto Hees, Marc Ferrez e Pacheco.

Por ser muito cara e direito dos nobres e empresários como forma de perpetuar a lembrança do ente querido muitas famílias se individaram com empréstimos de bancos ou amigos.

Mesmo assim muitos nunca tiveram oportunidade de serem fotografados em vida, mas seriam na morte.

Os grupos familiares menos abastados, pequenos comerciantes e moradores de cortiços juntavam dinheiro à vida toda para ter a condição de ser exposta no aparelho de luz francês.

Os estúdios fotográficos eram a coqueluche da vida social no Brasil no século XIX fixando horários especiais aos interessados em perpetuar a imagem do falecido.

Geralmente ocorria o " espetáculo" à noite (quando o comercio trancava seus estabelecimentos) poucas horas após o momento de expirar do dito cujo.

Longe, claro das vistas de crianças e senhoras da rua para não chocar os mais supersticiosos.

Os corpos eram colocados em uma cadeira e pernas e peito ficavam amarrados para não cair. Devido à rigidez que alguns apresentavam, eram banhados em soluções químicas de relaxamento muscular.

Senhoras sempre de preto. Crianças com os olhos abertos e roupas claras, geralmente branco ou azul no Nordeste, inspiração da venerada Nossa Senhora da Conceição que possui estátua no bucólico bairro de Casa Amarela.

Na corte ainda vemos indumentárias de cor vermelho rubro, escarlate, cor dos mártires, dos mantos de São João Batista e de São Jorge.

Família também se deixava fotografar e era uma grande honra. Saiam às tapas pelo prêmio macabro.

Vemos em diversos exemplares de colecionadores (alguns em casas de fidalgos coronelistas como Cavalcantis, Brennands, Monteiros, Rego Barros) e em museus de fotografia pelo Brasil, o membro do grupo familiar morto em pose de vivente e uma parentada a sua volta como se ainda fosse vivo neto em casa de avô, mulher em casa de pai e mãe.

Lembro de ter visto uma fotografia de um bebê em um ataúde vestido com roupa de São João.

Acredito deveras ser o seu próprio nome de batismo. Na sua mão direita uma pena (representa a intelectualidade, as escritas) e na mão esquerda um livro de versos católicos medievais ao exemplo de Stabat Mater ou madre dolorosa.

Uma foto do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, aquele mesmo que funcionou a primeira cadeia pública do estado e que fora o local de tormento e agonia de Frei Caneca (do divino amor) antes de ser morto por tropas do Primeiro Reinado, chamou minha atenção.

Era uma jovem e morena menina, típica perrnambucanazinha de sobrados da Rua da Aurora, no ano de 1895. No verso estava escrito, aos meus parentes queridos que vos deixo aqui na terra, uma eterna lembrança.

Não precisa expor mais nada, a doce menina,de cabelos encaracolados, típica mistura brasileira, resultado da miscigenação que todo o país vivenciou era uma criança morta.

Seu retrato era a lembrança de sua existência aos seus familiares e amigos. Sua mão segurava um raminho de cravo, simbolizando a volta a terra de uma flor que será novamente plantada ao solo.

Seu vestido, de festa, usado em ocasiões especiais era a sua melhor roupa. Havia uma grande necessidade de usar a melhor indumentária durante o sono de Hades.

Era dessa forma que o espírito se apresentaria as portas do céu. Ao julgamento de São Pedro e nos banquetes do Paraíso. Era o passaporte de sua viagem eterna.

Numa sociedade contemporânea como a nossa, esses costumes são considerados de péssimo gosto para não dizer soturno. A morte ficou distanciada do cotidiano dos vivos a partir do momento que o caixão é cerrado e enterrado.

Até as lagrimas são contidas, discretas , muito diferente nos tempos imemoriais quando as carpideiras gritavam, berravam para a multidão dando a morte um brilho quase que teatral, quase que barroco.

Leandro da Silva Cardoso.

sábado, 1 de agosto de 2009

Sociedade e doenças no século XIX – Da febre amarela á Gripe H1N1.


Foto 1- Charge “A cólera na família brasileira” – Jornal A semana Ilustrada.
Foto 2 – Bandeira do Império do Brasil.
Foto - 3 - A carta da morte no tarô.


A humanidade é fisicamente doente há muitos séculos, para ser mais sincero caríssimos e saudáveis amigos, milênios.

Desde que o planeta fora concebido como tal conhecemos, existem vírus, protozoários, fungos e bactérias e suas manifestações físicas como tosses, dores de garganta, febres e convulsões fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas de diferentes culturas e classes ao longo das estradas anuais.

Esses seres são mais velhos que o ser humano e necessitam de animais e vegetais para poder servir de hospedeiros para se reproduzir.

Ceifaram com a lâmina afiada da morte ocidental, enegrecida, com face de caveira fétida, toda a espécie de civilizações: ricas e pobres, negras e brancas, rurais e urbanas, modernas ou arcaicas tendo o sangue correndo pelo solo com gritos de dor e clemência dos sobreviventes.


Índios escravizados foram exterminados não apenas fisicamente pelo colonizador manipulador, mas em grande quantidade por um “predador” que eles cá trouxeram exemplificado na gripe comum, a pouco versada influenza sazonal, pois seus organismos não possuíam anticorpos contra esses invasores invisíveis.


Seus corpos eram imuno-deprimidos e por isso adoeciam e morriam com extrema rapidez, causando falta de mão de obra na “ação” colonizadora.

Extermínio próximo em forma comparativa é a epidemia de AIDS que assola o continente sub saariano. Os africanos de hoje são os grupos indígenas de outrora, frágeis e manipulados.

Grande parte do povoamento do litoral do Brasil fora feito por conta do degredo português no que eles chamavam de: limpar a metrópole, levando a sujeira social das ruas para o inferno verde de tucanos.


A rainha Dona Maria I de Portugal, mãe de D. João VI por causa de ignorância (fanatismo) religioso acabara sendo a culpada pela morte do filho mais velho, D. José príncipe do Brasil e da beira, herdeiro presuntivo ao trono português causado por varíola por se recusar a vaciná-lo. Acreditava que só Deus tinha o poder de curar ou matar alguém.

O Império Português, o mais católico da Europa via na ciência a heresia e com isso muitos estudos da área de saúde foram proibidos e combatidos com penas que variavam desde o açoite em praça pública a morte por enforcamento.

Grande incentivador das pesquisas médicas, o Marques de Pombal fora preso e seus direitos políticos cassados. D. Maria e seu marido D. Pedro III formavam a mancha evolutiva de Portugal.

Doenças e pestes eram vistas como castigo divino e forma de resignação a Deus. Ciganos, Judeus, prostitutas, hereges, sodomitas e toda espécie de minorias foram os grandes responsáveis pelos ares impuros da metrópole e de seus domínios ultramarinos. Causavam a desgraça pública e moral da velha mãe Europa.


A grande causa das moléstias do passado sem dúvida está relacionada à falta de higiene com o próprio corpo.

Durante muito tempo era costume na Europa a idéia de que ao lavar o corpo, o homem perdia suas defesas de organismo. A sujeira era uma barreira que impediria as doenças e protegeria a saúde física.


Habitantes portugueses degredados no Brasil nos séculos XVI e XVII assim como índios de diversas etnias adquiriam o hábito de lavar o corpo em rios, córregos e no mar. Só veríamos essas cenas novamente dois séculos mais tarde.

No Brasil Colônia e Império por influência da metrópole era comum na hora do banhar (lavar o corpo inteiro com esfregão), a família usar a mesma água do tonel de madeira (banheira), de forma decrescente, do parente mais velho da casa (patriarca) ao mais novo (filhos ou netos).

Nisso, a sujeira coletiva acabava contaminando a criança (frágil) por microorganismos, aumentando a taxa de mortalidade da família.


Muitas crianças morriam recém nascidas por causa do que era conhecido e temido na época como mal dos sete dias.

Era a inflamação do umbigo causado por bactérias, por falta de higienização e limpeza. Pode parecer brincadeira do ponto de vista atual, mas foi registrado em diários de viajantes casos de parteiras que demoravam até oito horas para cortar o cordão umbilical da criança.

Milhares de anjinhos subiam aos céus chamados pelo arcanjo Miguel por causa desta complicação.

Pode parecer absurdo, mas, uma pessoa no século XIX, branca, fidalga, aristocrata poderia tomar banho uma vez a cada 12, 15 dias, dependendo da região do Brasil.


Em locais mais frios como nas províncias do Rio Grande e São Paulo de Piratininga podia o banho completo ocorrer a cada dois meses ou mais.

Durante os treze anos em que esteve no Brasil, só existe um registro histórico de banho de D. João VI. Em uma tarde de caça, na Real Fazenda de Santa Cruz, no subúrbio da corte, o Rei foi picado por um carrapato e por conta da falta de limpeza e lesleixo, o ferimento agravou e causou febre.


O mordomo mor, Matias Lobato recomendou banhos de mar por conta do sal que servia como cicatrizante natural. O local foi na enseada de Botafogo. Escravos de ganho, homens, mulheres e crianças viram a cena e o “milagre” foi documentado oralmente.

Ao ver contos infantis readaptados dos irmãos Grimm, com Reis elegantes e princesas limpas vemos que é tudo mesmo um mundo de fantasia. Não lembra em nada uma época sem esgoto, luz elétrica ou mesmo água potável.

D. João mesmo soberano de Portugal, Brasil e Algarves fora Angola, Madeira, Açores e Macau costumava não trocar de roupa até que a mesma apodrecesse ou rasgasse por inteira no próprio corpo.


A sociedade disfarçava o (C.C) cheiro de corpo que muitos já consideravam odor natural, com óleos aromáticos e perfumes. As mulheres usavam paninhos umedecidos com ervas para o rosto e os homens lavavam apenas o rosto para receber visitas ou arruar pela cidade.

Banho completo apenas em ocasiões muito especiais: casamentos, formaturas e batizados. Inimaginável essas situações de imundície lendo romances de Machado de Assis ou vendo novelas globais das 18 horas.

Pouca gente sabe, mas, em 1858, ocorreu um surto de piolhos e de sarna na Corte carioca causados principalmente por falta de limpeza da própria população.


Hábito luso, mau hábito que ia da família real ao camponês. Chuva era desespero. Se hoje é ecologicamente associando a vida, no passado era de doença e morte.

Basta lembrar que a Tuberculose era a doença mortal do século XIX, romantizada por poetas, temida pela população em geral.


Apenas na década de 1880, a boa sociedade, que queria ser esclarecida, refinada, colocaria em prática os conselhos dos médicos europeus, que formaram a elite médica exportada do Império Brasileiro (filhos de grandes comerciantes, senhores de engenho de açúcar e café, filhos de senadores e ministros do governo).

São criadas as primeiras casas de banhos termais, formadas por duchas que alternavam entre o quente e o frio e que além de serem indicados pra fins terapêuticos, tratamento de doenças mentais era a forma mais moderna de higiene de corpo.


Era com isso o reflexo do tema moderno “corpo são, mente sã”. E representava a modernidade do filho da elite que pagava caro e fazia o “social” entre as famílias abastadas que viajavam com freqüência a Europa.


Como vocês podem perceber tudo, inclusive saúde no Brasil era uma questão da moda importada, européia. As cascatas de água vão ser os novos sons da ópera romântica dos ricos imperiais.

O velho continente percebeu que a saúde dos seus estava em perigo e as Américas copiaram suas novas leis de limpeza e sanitarismo.


Nos centros urbanos do Império do Brasil, as cidades eram mal planejadas, mal arborizadas e com o aumento de população local, graças à abertura dos portos, incentivo a imigração e descontrole de natalidade, bairros dos centros foram se tornando cheios, abarrotados de todo tipo de pessoas criando comunidades individuais, micro cidades dentro de cidades.


Os cortiços eram formados por milhares de pessoas que dividiam um espaço pequeno, úmido, apertado e fechado que acabaram se tornando focos letais de doenças como a cólera morbun, a tuberculose, a febre amarela, a gripe sazonal e a febre tifóide.


Aluízio de Azevedo em seu romance “o cortiço” expõe com maestria a realidade brasileira que a elite Imperial queria esconder ou eliminar. O realismo acaba rompendo com o romantismo utópico da vida do brasileiro.


Quando ocorria algum surto na cidade como os de febre amarela e cólera, já mencionados, a Família Imperial se refugiava em Petrópolis e só quando os sintomas das moléstias cessavam, voltavam para a corte, geralmente após o verão.


Durante o carnaval carioca de 1858, milhares de pessoas contraíram febre amarela superlotando as misericórdias e muitos habitantes morriam em quatro ou cinco dias.


Viáticos e padres não davam conta da extrema unção, sepultando o mais rápido possível para evitar a contaminação.


Roupas de cama eram incineradas, caixões eram empilhados nas praças públicas, sinos pós-morten não paravam de tocar em todas as horas, crianças e mulheres não saiam de dentro das casas, repartições públicas entraram em recesso.

Pedro II visitava hospitais de irmandades e dos Lázaros e anotava receituários de remédios e curativos, prometia estudos. Nuvens de fogo e bandeiras pretas eram hasteadas nas portas e janelas das casas sinalizando que aquele espaço era perigoso e poderia ser foco de contaminação.


A aglomeração junto ao fator climático tropical e as casas coladas, empilhadas umas nas outras, dando uma aparência cubista além do hábito privado das famílias brasileiras em jogar as fezes e urinas no chão das calçadas das ruas onde ratos e baratas circulavam como se fossem cidadãos de respeito, a falta de limpeza e troca das águas das bicas e chafarizes que tinham a água poluída pelos próprios moradores.


Brancos e escravos de ganho que utilizavam a própria água suja, exposta dias ao sol, para lavar roupa de casa ou a serviço de dinheiro e para a preparação dos alimentos para o almoço e jantar. Explica sem dúvida o porquê a população adoecia gravemente.



Com toda a certeza, nesse relato extraído dos diários particulares de Dona Eufrásia Teixeira Leite se vê que grande parte das doenças endêmicas do Brasil se relacionavam com limpeza e poderiam ter sido evitados.

O uso da água não filtrada e fervida causou a morte de muitos do Império por febre tifóide. inclusive da Princesa Leopoldina de Bragança e Coburgo, irmã da Princesa Isabel, e filha de D Pedro II só para citar uma personagem que causou comoção pública no período oitocentista.


Por isso mesmo, hoje, agradeçam o fato de tomar água mineral independente da marca, pois no passado água também podia ser sentença de morte eminente.

Nas primeiras décadas do século XX, ainda por conta de uma sociedade com mentalidade patriarcal e preconceituosa, homens se recusavam a abrir as portas de suas casas para receber os agentes sanitários da República.

Alegavam invasão de privacidade alem de afronta moral já que suas mulheres teriam de levantar as “saias” para estranhos médicos e agentes de saúde.

Essa foi à situação vivida pelo médico sanitarista Osvaldo Cruz no período da revolta da vacina quando a medicina estava lenta em experimentos laboratoriais.


Mesmo após uma campanha de saneamento e drenagem de esgoto ainda dos tempos do Império, a República Velha continuava a se afastar dos problemas de limpeza, criando novos bairros e marginalizando, abandonando as zonas centrais.


Os tigres (negros que coletavam os dejetos das casas,) foram substituídos pelo servidor público remunerado que derramava o lixo nos rios e canais da cidade em vez de aterrar-los assim como no passado recente.

Na prática da saúde dos habitantes, não houve mudanças significativas até aquele momento.


A partir das décadas de 1940, e 1950, o governo brasileiro investe financeiramente em estudos e cria o Ministério da Saúde (junto do da educação – vela salientar) capacitando profissionais para o combate de doenças tropicais.


Há algumas décadas, o medo e a desinformação criavam pânico na população. Não se conhecia a profilaxia, a prevenção do mal. A dificuldade de comunicação e a distância entre as províncias alastravam as doenças.

Misticismo junto com curandeirismo prometia o milagre da salvação do corpo e da alma do doente, do moribundo, velas e novenas iluminando procissões percorriam as ruas. Todos poderiam se contaminar e não saber a causa.


Informação é invenção do mundo moderno. No século XIX, a comunicação era de boca em boca.


Hoje, acontece um fenômeno interessante e totalmente novo, aos olhos da história da humanidade. Acompanhamos em tempo real a criação, a proliferação e a multiplicação dos vírus e bactérias.


As mídias modernas, representadas na internet e na televisão, são também meios que informam a população sobre o surgimento de uma nova doença. Criam a informação e o caos ao mesmo tempo por muitas vezes deturpar informações ao povo.


Porém as mesmas se multiplicam com mais facilidade e em menor tempo do que no passado pela facilidade de locomoção moderna via trafego aéreo ou terrestre.


Não que as doenças não vinham em meios de transporte, aliás, no passado quase em sua totalidade. Navios eram bombas de enfermos ao mar, onde a taxa de mortalidade era em média, mais da metade dos tripulantes.


Mas o tempo dos extremos, do imediatismo em que vivemos encurtou as distâncias. Podemos estar no mesmo dia em vários países e continentes e contaminarmos caso estejamos doentes varias pessoas, fugindo ao nosso controle.


No século XIX algumas doenças eram excludentes, eram chamadas pejorativamente como “mal de povo”, atualmente as vejo democráticas, contaminam ricos e pobres, velhos e adultos, heterossexuais e gays.


No passado, as santas casas de misericórdia, criadas em Portugal cuidavam de enfermos das províncias do Brasil, dando assistência médica e curativo aos enfermos.


Hoje precisamos marcar consulta com meses de antecedência na rede pública estadual e contar com a sorte de ser chamado.



Uma coisa é certa. Voltamos ao passado sendo cólera, febre amarela ou gripe H1NI. Somos humanos e temos medo, terror daquilo que não temos controle absoluto.


Não ter todas as respostas para as indagações fisiológicas e corpóreas é a grande doença na mente do homem do século XXI.



Referências Bibliográficas:

ALENCASTRO, Luís Felipe de. O trato dos vigentes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XV e XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


JARDIM, David, Gomes. A higiene dos escravos. Rio de Janeiro, Tese Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. 1847.


STEIN, Stanley J. Vassouras: Um município brasileiro do Café, 1850-1890. Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1990.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Braganças e Sarneys - Esboço comparativo entre o Marajá e o Português.


Imagens:
1º plano ao fundo: Bandeira do I Reinado assinada por Jean Baptiste Debret.
1ª foto: Aurora, dia melhor virá.
2ª foto: Igreja de São Pedro de Alcântara – Petrópolis (RJ)
3ª foto: Túmulos de D. Pedro II e Tereza Cristina – Petrópolis (RJ)
4ª foto: Bandeira do estado do Maranhão.






Caros amigos leitores!

A história se repete, é cíclica. É a construção e a desconstrução do passado e do presente.

Nunca deve ser analisada de forma finita, pois sempre podemos descobrir novos documentos e fazer comparações com os problemas da atualidade. Aliás só entendemos as relações humanas de hoje se entendemos a historiografia no passado.

Corrupção sempre existiu no Brasil e durante muito tempo fora costume comportamental lícito na sociedade urbana e rural. Os desvios clericais, político- sociais faziam parte das normas da vida privada das províncias.
Brancos, negros, barbeiros, comerciantes, europeus viajantes e padres sobreviviam ou viviam na já exaustiva e oitocentista malandragem.

Tudo levava o “jeitinho” brasileiro ou brasiliense. Empregar amigos e parentes era costume comum e até incentivado pelo dominante. Para a mentalidade da época, antes confiar na família do que num estranho.
Daí dos mascates (comerciantes) até os altos ministros do Império, toda decisão se passava na esfera familiar. Nomeação ocorria sem diários oficiais. Nomeação era na boca á boca.

Na primeira carta escrita no Brasil, Pero Vaz de Caminha já pedia emprego a um parente. Nosso país se tornou o destino dos degredados onde se podia tudo, inclusive beneficiar agregados. Era tao comum que dificilmente fraudadores eram presos.
Era mais fácil prender um negro por roupar galinha para subsistência do que branco ser abordado pela intendência de polícia da corte acusado por nepotismo.

Nossa história tem 509 anos de controle social e político. Fomos consumidos enquanto terras e minérios por Portugal, somos violentados moralmente enquanto cidadãos com 465 reais de um salário mínimo e injusto que não satisfaz todos os nossos direitos "enquanto" cidadãos da constituição.


O poder sempre teve relacionado a uma minoria tão pequena, tão ínfima que comparado com os já milhões de habitantes no Brasil Imperial poderia ter passado despercebidos engolidos pela escravidão e servidão.

Mas não foi. Desde os tempos das pesadas e empedradas casas grandes até os altos muros de condomínios urbanos da atualidade, a classe dominante se protege armada até os dentes do contato com o povo.

Não somos democráticos. O que achamos que é democracia ou filosofando como os gregos antigos (igualdade) de povo é utopia. Não somos iguais. Somos diferentes, iguais no papel amarelado do velho código civil. Diferentes na vida real.

Enquanto o mundo for capitalista haverá pobreza, miséria e conseqüentemente desigualdade social. Enquanto existir uma minoria que controla a maioria, nepotismo, coronelismo e mentira reinarão no país verde e amarelo.

Os velhos aristocratas sempre foram os donos do tesouro nacional no Império e na República. Faz parte das nossas histórias de costumes, faz parte da identidade nacional por pior que pareça.

Algumas coisas mudaram, por exemplo, nobres no Brasil Imperial eram isentos de impostos. Conde de Afonso Celso e de Itaparica no ministério protestavam contra o abuso do “bolsinho” imperial.
Hoje até o presidente da República paga, porém alguns no passado sonegavam como Fernando Collor, José Sarney. Ops. desculpem a quebra do sigilo.


Foi nesse período conturbado, indeciso onde o país estava coberto de lama, por conta de corrupções e inflação que o Marajá das Alagoas fora expulso pelos jovens caras pintadas.
Ocorreu algo inédito na história política do Brasil: um plebiscito que chamo “de volta ao passado”, sem alusão aos clichês hollywoodianos.

A surreal volta do Brasil Imperial. Livros didáticos de história do Brasil mencionam este acontecido? Claro que não.
Mas por mais estranho que possa aparecer, os brasileiros foram às urnas para votar pela volta do regime de monarquia parlamentarista organizado pela casa real do Brasil e seu diretório monárquico.

Aproveitaram o momento de desilusão política dos brasileiros e armaram seu golpe de publicidade e marketing. Por algum tempo retiraram seus brasões e comendas da ordem de cristo dos baús e colocaram ao sol.

Vale alguns questionamentos. Por que isso? Foi uma tentativa de um contra golpe mais de um século depois? talvez. O sentimento de nacionalismo brasileiro estava tão ferido que o porquê não uma família imperial novamente no cotidiano? concerteza.

Afinal vivia-se um regime de nepotismo familiar na esfera governamental. Então o porquê não ficar tudo em família mesmo. Fico pensando, seria uma tentativa de atropelar tempos históricos voltando ao passado numa tentativa de construir um país mais justo tentando corrigir os erros da colonização?

Mesmo tendo pouco mais de 7% são uma percentagem de grande valia. Mostrou-se que a população estava insatisfeita com os rumos que o país estava dando. Ficou claro que existe uma força particular que envolve política no Brasil.

Os brasileiros estavam insatisfeitos no I reinado? Sim. A popularidade do rei soldado português despencava a olhos vistos. Assassinatos e infidelidade contribuiram para seu declínio.
A sorte dele é que não existia escutas telefônicas naquela época. Se tivesse existido, a noite das garrafadas teria se tornado a noite das bombas.

No nosso país, formado por matas exuberantes, nosso primeiro Imperador formulou um quarto poder na nossa primeira constituição: o poder moderador.

Seria em sua justificativa o “responsável” pelo “equilíbrio dos demais. Lembrando caro leitor, da existência do executivo, legislativo e judiciário. Esse poder era pessoal e privativo do imperador, assessorado por um conselho de estado. Era superior aos demais.

D. Pedro I era o detentor exclusivo com a atribuição de nomear e demitir livremente os ministros de estado. Sua palavra era a final. O que caracteriza isso? Palavra final para um chefe de estado? Democracia? Não, ditadura.
Além do mais, opositores foram demitidos e mortos. O que tem haver com o assunto? Tudo. Daí percebemos que a minoria junto da família patriarcal controla a vida social e política do Brasil de ontem e de hoje.


D. Pedro I no Brasil, D. Pedro IV de Portugal. Rei de dois mundos. Admirador de Napoleão, o grande inimigo político do seu pai D. João VI. Criador do poder moderador na carta de 1826 com o próprio punho.
Representava uma autoridade intransigente defensora do estado. Minoria no recém país independente, mas com a mesma família reinante aqui e na Europa. Manipulava o poder.


Controlava o país com a família, demitia quem bem entendesse, criava leis e as aprovava mesmo sem o voto do legislativo. Na sua primeira infância, no Palácio de Queluz, viveu em um quarto com decoração a La Dom Quixote. Poder sempre esteve presente na sua existência.

Século XXI, o rei do Maranhão é o presidente do Senado Federal. Não é rei com coroa, nem cetro mas, utiliza poderes para beneficiar familiares. Criou um reino particular onde seus filhos e netos são beneficiados com empregos públicos, sao por tanto os príncipes das ruas maranhenses.

Sua família manda e desmanda até nas telecomunicações de São Luís. Praticam o antipático “você sabe com quem está falando”. Sua vida hoje é muito próxima a D. Pedro.
O poder transforma as pessoas e no caso de Sarney ninguém se lembra, mas o " próprio" apoiou a ditadura de Figueiredo e hoje posa de homem sério e democrático. Criou um poder moderador /centralizador.

D. Pedro I pelo menos tinha o poder patriarcal de mando pela família. Era hereditário e de ponto jurídico, legal. Sarney manda na clandestinidade. Falta as ensíguimas da nobreza falsa. Ele é o símbolo de um Brasil atrasado e explorador.
É um câncer político que precisa ser extirpado da vida pública. E quem sabe voltamos a ter uma dinastia, mas, por favor, com seu nome de batismo: José Ribamar Ferreira de Araújo Costa já que até seu nome público é falso.



CARDOSO, Leandro.


Referências Bibliográficas:

DAMATTA, Roberto. O que é o Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

MONTEIRO, Tobias. O Primeiro Reinado,Tomo I, Rio de Janeiro, 1939.

VARNHAGEN, Francisco Adolfo, História da Independência do Brasil, 1910.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O espetáculo da morte no ocidente.


Para algumas pessoas, sou um “ser” soturno, pois volta e meia escrevo algo relacionado à morte. Não sou obcecado pelo tema, mas admito que gosto.

Porém nos meus textos, procuro ser contemporâneo mesmo analisando-os de forma paleográfica. E aproveitando esse assunto, percebo que a morte sofrera mudanças significativas nos dias atuais.

O valor da morte foi banalizado e não existe um respeito social em específico nos meios de comunicação regional, nacional e global. A morte é consumida como se fosse um sorvete de chocolate.

Existem pessoas que se saboreiam com o aroma ceifante dela, principalmente quando esse estágio da vida meche com dinheiro e publicidade.

Também se mostra mui decorrentes hoje, alterações nos ritos de passagens representados no velório, no enlutado e no adeus.

Refiro-me na maneira distanciada com a qual se morre atualmente. No século XIX a morte era uma festa com manifestações de cantorias, desfiles de caixão (ataúde abertos) e missas que se prolongavam por horas, dependendo da região, dias, semanas.

O dia de todos os santos, o famoso finado de dois de novembro já foi um dia de respeito e resignação, um dia de orações pelas almas do além vida.

Hoje como feriado, é aproveitado para visitas a praias e centros de compras.

Morrer era tão importante como o próprio viver. Pois como dizia a oração de São Francisco de Assis “e é morrendo que se vive para a vida eterna...”.

Condolências, pesares, preto e roxo por dias e meses foram substituídos pelo momento final e minutário dos serviços do enterro.

Nisso analisamos até o grau do espírito respeitável das roupas para a época. Hoje vemos até vermelho nos campos santos. Uma liberdade que vira em excesso libertinagem.

Houve do século XIX para cá um distanciamento, uma expulsão dos mortos das cidades dos vivos. Imagino o estranhamento dos Bragança no Rio de Janeiro em enterrar rapidamente o corpo da Rainha Maria I.

Na América do sul, velórios eram curtos por causa do clima tropical e quente. A carne independentemente de ser humana ou animal entrava em estado de decomposição em poucas horas.

O enterro nas Igrejas era repudiado pelos poucos médicos sanitaristas estudados na Europa iluminista. O ambiente fechado, quase uterino das catedrais escondia os miasmas que deixavam doentes os vivos.

O morto não era apenas uma carne, mas um prolongamento, um ancestral de importância sobre humana aos que ficavam. Aliás, durante muito tempo, sendo o patriarca da família, seu local na mesa de jantar continuava preservado mesmo depois de anos eternizado.

Nessa terra considerada por olhos estrangeiros uma espécie de inferno verde, um paraíso perdido a rapidez dos ritos de passagem chocavam os conservadores do velho mundo.

Sendo costumes ibéricos e medievais, o morto era visitado por todos da comunidade. Sua casa era aberta e seu corpo era visitado, cantado, bebido, chorado por ricos e pobres, cortêzans e freiras.

Se no tempo de Victor Hugo essa situação era corriqueira, no século de Foucault o homem desprezou a coletividade e intitulou a individualidade e a discrição na (i) mortalidade.

No passado, arrastavam-se os cortejos por dias entre ruas, becos e travessas numa espécie de congregação mútua. Nem por isso a simbologia da morte era quebrada.

Havia “a necessidade de “retratar” “ pintar” para a posteridade esses momentos. O francês Jean Baptiste Debret fora designado para a “ honra” de imortalizar nos pincéis a única rainha de Portugal que pós os pés no Brasil.

Quase dois séculos mais tarde, as imagens pixels do caixão de cobre folheado a ouro do “Rei da Indiana” vão substituir um desses ritos fúnebres.

Famílias viviam esse momento com respeito imensurável. Hoje é bem diferente, o homem positivista, da era do imediatismo, da tecnologia valoriza o que é vivo, bem vivo e consumista.

Na vida urbana pós-moderna, só se tem o direito de chorar quando ninguém vê nem escuta: o luto solitário e envergonhado é o único recurso. Hoje já é possível enterrar um parente e ir a uma festa na mesma noite.

Na África setentrional, o luto é vivenciado por toda a esfera familiar. Aliás, os parentes permaneciam ao lado da família do morto na casa por semanas até a recuperação psicológica dos enlutados.

Bem diferente se comparar-mos uma sociedade capitalista onde “time is Money” na vida ocidental não tem tempo para emoções já que vivemos a idade da razão cimentada, oca e cristalizada.

Por conta do pão nosso de cada dia materializado no trabalho rotineiro a morte coletiva na sociedade moderna é esquecida até a hora de bater o cartão da empresa. Os enlutados introjetam sua dor de forma solitária, intima, particular.

Vive-se uma aura coletiva de que morrer chega ao fim. Tem que ser esquecido de forma gradual. Os famosos bordões” a vida continua” ou “antes ele do que eu” e como a vida é tão corrida e individualizada, o momento do velório é sedimentado para muitas famílias a única interação social em anos de uma mesma rede social (colocando conversar em dia por exemplo).

No mundo moderno, civilizado, não falamos sobre a morte representada no enterro, no ir além da vida. No momento da ultima cal parece, que se deixa de existir a vida.

Ela se torna passado e passado no Brasil se torna poeira incômoda na memória da população.

Vivemos o espetáculo de como morrer, independente da morte natural ou violenta. Porém a segunda opção é a sacada mestral da vez da indústria “cultural” e sem dúvida existem interessados quanto à repercussão dessa situação.

Basta ter acesso a certos canais de televisão ao meio- dia. No horário sagrado do almoço, as pessoas vêem em reportagens de profundo mal gosto o sangue jorrar em rios de morte com azas de corvo que podem ser confundidos com as azas da galinha recém temperadas do almoço.

Num estágio onde crianças, jovens e mulheres são expostas a visões de genocídios urbanos quase aplaudidos por jornais de segunda mão.

O homem “moderno” se diverte com essas coisas. Se no século XIX a morte era uma festa popular em respeito aos mortos, enquanto suas experiências em vida, sua importância social e local, no século XXI ela é entretenimento apenas passageiro, ela junta milhares de curiosos, como tudo na era da informação.

Nessa semana, enquanto o mundo midiático esquece a ditadura inescrupulosa do presidente do Irã e o país camufla a crise do senado, se tem a idéia de grandeza da morte de um artista extremamente popular. A morte do já exaustado Michael Joseph Jackson. E a pompa de suas exéquias. O ocidente não viu neste século algo tão impactante.

Seu velório simbólico virou objeto de cobiça mundial com sorteios de ingressos via internet como se fosse um espetáculo de multidões. Uma exposição da vida e morte. Onde a antítese da segunda não existe.

Choro vira aplausos. Coros outrora réquiens lacrimosa se tornam guitarras de John Mayer. A morte é os fogos de artifícios de uma sociedade extremamente doente emocionalmente, sem conteúdo analítico, onde tudo vira pastiche.


Referências bibliográficas.

DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.Trad. e notas Sérgio Milliet. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1989.