
Leandro_cardoso_90@hotmail.com
Entre parênteses.
É interessante trabalhar minorias no século XXI. Em Pernambuco vimos neste ano de 2009 um casamento simbólico entre gays. Graças a essa união (de gays ricos, deixando claro) que gerou muitos comentários na imprensa local incluindo o principal jornal do estado, achei interessante pesquisar a história do homo erotismo no Brasil. De pecado nefando, passando por vício de clérigos portugueses e chaga da catequese até modismos publicitários, muitos anos e muitas histórias surgiram no amor que não podia ser pronunciado e muito menos praticado.
Observação: Deixo bem claro que é uma pesquisa mínima, suscita de curiosidades, sem nenhuma pretensão a artigo acadêmico muito menos a normas da ABNT.
Delimitando a história.
A homossexualidade masculina era praticada na Grécia antiga. Tolerava-se a pederastia (relação sexual e “emocional” entre adultos e adolescentes pré- púberes), porém era considerado crime e alvo de repúdio relações de adultos com adultos.
Além do que ser passivo era motivo de chacota pública. Bem, nessa questão não houve muitas mudanças nos últimos 2500 anos. Tudo bem que o carrasco não sujava a lâmina com um sangue podre de um homossexual passivo como se dizia na terra de Sócrates, mas na era High Tech é necessário ter uma cartilha de comportamento firmado pelos próprios gays em ser homem heterotizado em vez de afeminado.
No Brasil Imperial com a secularização da Igreja Católica e com o livre arbítrio de cultos religiosos, os homossexuais deixaram de sofrer perseguições religiosas na corte. Era, porém caso de polícia, precisamente responsabilidade da intendência de polícia da Corte. Ser denunciado por atos sexuais pelos vizinhos não davam mais fogueiras, davam semanas de cadeia. Muitos homens que se vestiam com camisas rendadas, usavam gels e perfumes eram considerados atenta dores da masculinidade.
Na comarca de Rio das Mortes, próximo a cidade de São João Del Rey, Luiz Mott, professor da UFBA escreveu sobre um professor particular chamado João das Tabordas (No passado, internatos eram nas grandes cidades, os pais contratavam professores particulares, ou padres- mestres para ensinar as primeiras letras aos filhos) que mantinha relações sexuais com um aluno.
“Meu amorzinho venha até a mim, estou na beira do rio, louco pra te ver, trago uma garrafa de água ardente par nos dois”.
Percebe-se nessa cartinha um envolvimento afetivo. Nem eu, nem o professor da UFBA sabemos o que aconteceu com os dois. Essa carta hoje faz parte dos inventários da Biblioteca Nacional. O chamado vício dos clérigos (padres e a relação entre as “batinas” nas noites escuras dos seminários coloniais) não podia nunca ser pronunciado.
Por isso a expressão pecado nefando segundo o dicionário Aurélio, era aquilo que nem se quer poderia se falar, comentar. O pecado mortal, sodomia completa, com ejaculação era porta de entrada sem escala para o inferno. Muitos afeminados (a expressão já era conhecida em Portugal continental) tinham profissões que na atualidade poderia ser classificados como estereotipadas para gays como cabeleireiros, modistas e cantores castrati (jovem que tinham os órgãos sexuais castrados para ter a foz afinada em corais da Igreja ou em óperas nos teatros da Corte).
A medicina legal começava a desenhar o perfil do “antifísico”: um tipo humano relacionado a determinadas formas de animalidade, entre as quais as relações homo. Imediatamente, a homossexualidade, associada a uma herança mórbida, tornava-se alvo de estudos clínicos.
O homossexual não era mais um pecador, alvo do fogo cristão, mas um doente, a quem era preciso tratar. Na corte imperial, no hospital da praia vermelha, inaugurado pó Pedro II e tendo Philippe Pinel como patrono, os homossexuais eram alvo de choques anafiláticos, tratamentos com purgantes e duchas frias ou quentes. A beleza da Praia localizada na enseada do bairro de Botafogo era ofuscada pelos gritos de pavor dos pacientes.
Tudo podia começar por uma amigação em um colégio para rapazes. A literatura é clássica ao abordar o assunto em O ateneu de Raul Pompéia. Não podendo se relacionar com o sexo oposto, muitos jovens tinham sua iniciação sexual com o mesmo sexo. Em Casa- grande e senzala, Gilberto Freyre deixa claro que no mundo da civilização da cana, antes mesmo dos garotos se fartarem da carne e das curvas das negrinhas e mulatas, um companheiro, o muleque( criança negra, mula pequena) era seu primeiro brinquedo sexual. O sociólogo de Apipucos também deixa outros relatos interessantes. Alguns tipos dengosos, quase sinhazinhas, faziam-se notar pelos trajes de veludo, pelas sobrecasacas a Luís XV com rendas nos punhos, pelas golas de pelúcia dos casacos, muita brilhantina, pó de arroz nas faces, o extrato excessivo no lenço, adereços que os tornavam objeto de escárnio por parte dos colegas e “dos cabra machos” do Recife.
Em seu livro Attentados ao pudor: estudos sobre as aberrações do instincto sexual de 1884, José Viveiros de Castro, professor de criminologia na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro empregou, pela primeira vez, um termo pejorativo: fresco. No capítulo intitulado “Pederastia”, descreveu os frescos cariocas, referindo-se a homens que, em 1880, nas ultimas festas do Império, invadiram o baile de máscaras do Carnaval no Teatro São Pedro, localizado no largo do Róssio, centro da Capital. Tal como outros intelectuais da época – físicos, políticos, advogados, intelectuais e artistas -, ele retratava os sodomitas modernos como homens efeminados que praticavam o sexo anal (conhecido até o século XVIII como vaso traseiro ou o pecado do sexto mandamento) como elementos passivos e ganhavam a vida com prostituição das ruas. “Um desses frescos”, diz Viveiro de Castro.
Como eram conhecidos na gíria popular, tornou-se célebre pelo nome de Panela de Bronze. Vestia-se admiravelmente de mulher, a ponto de enganar os mais perspicazes. Dizem que chegou a adquirir alguma fortuna por meio de sua torpe indústria e que era tão grande o número de freqüentadores, pessoas de posição social, que era necessário pedir com antecedência a entrevista.
Membros da classe médica, como o conhecido Ferraz de Macedo (um dos mais importantes da época e médico da família Imperial), ocasionalmente escreveram sobre o tema, combinando a tradicional aversão moral ao homo erotismo com teorias do tipo: a homossexualidade se devia a distúrbios psicológicos; originava-se graças à falta de “escapes normais”; atribuía-se a criação moral imprópria. Listavam-se as diferentes características dos “penetradores” e dos “penetrados”. Era a moralidade e não a medicina, o remédio para lutar contra essa “aberração da natureza.”
Oscar Wilde, o famoso escritor inglês autor do O retrato de Dorian Gray sofreu na pele o preconceito contra sua forma de amar. Em Di Profundis/ balada do cárcere de Reading obra que escrevera na prisão, o escritor fala de sua relação com Sir Alfred Douglas e como o jovem belo, delicado e amável o deixou na miséria e o denunciou contra a suposta corrupção. O amor que não podia ser declarado segundo ele, o arruinou.
Voltando ao médico do Imperador, esses homens os “diferentes” tinham vocábulo próprio e sinais para efetuar suas “cantadas”. Identificavam-se por conversas, gestos de mãos e “pouca serenidade e circunspeção”. Gostavam de ficar à toa em lugares públicos, especialmente nas ruas mais movimentadas, em procissões religiosas- eles, tanto quanto os casais heterossexuais – em frente aos teatros e durante romarias. Possuíam elegância, faziam questão de estar bem vestidos, portando camisas bordadas, lenços vermelhos ou azuis e gravatas de seda. Perfumavam os cabelos, usavam ruge e maquiagem pérola, portavam berloques e correntes de ouro. Eram considerados representantes de um mundo depravado segundo as rodas de fofocas. A malícia e o antilusitanismo da época ficam evidentes na acusação que os comerciantes portugueses sofriam de fazer seus caixeiros suas “mulheres”.
Não faltavam notícias de jornais, como a publicada no O periquito, de Recife, sobre os “Tarugos”, como eram chamados aqui.
“Um moço de 16 anos, pardo”, com uma cabeleira que se desprendia em grande trança.
Vestia camisa de mulher, meias compridas e sandálias bordadas. Em seu baú foram encontrados retratos de alguns empregados do comércio, cartas amorosas etc.” Foi a época do famoso Herotides, que dançava, em trajes típicos, em marchinhas e bailes pastoris, correntes em dezembro, ou de Atanásio, que à rua dos Ciganos, na Capital, recebia desde um simples caixeiro ao senador do Império.
Ainda na Veneza Brasileira, Francisco do Rego Barros, militar e engenheiro matemático formado na França, governador da província agraciado com os títulos de barão e Conde da Boa Vista, mesmo não sendo homossexual foi uma famosa vítima de fofoca entre os recifenses. O fato de ser um homem estudado na Europa, e limpo, graças ao cuidado com o asseio pessoal, incluindo o uso de loções e perfumes, o deixaram com a fama de fresco entre os homens hipócritas da capital do Nordeste canavieiro.
Posfácio.
Tentar compreender a história do homossexual na atualidade é tentar encontrar, garimpando no passado a sua história. O estudo de gêneros é algo novo na historiografia e muitas vezes é alvo de preconceitos na própria academia. Se hoje, dois homens podem adotar crianças e tem direito a comunhão de bens, foi por que houve derramamento de sangue pelo desejado sonho de igualdade dos nossos diferentes tarugos de madrepérola e amores soltos.
Algumas bibliografias.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. 14. Ed. Global, 2007.
MOTT, Luís. Pagode Português: a subcultura gay em Portugal nos tempos inquisitoriais. Ciência e Cultura, 40(2):120-139, fev. 1988.
PRIORI, Mary Del. História do amor no Brasil. Ed. Contexto, 2003.






